ARTIGO: A nova reforma do ensino médio
07/05/2018 11:18 em Geral

O sistema educacional brasileiro sempre foi tema atual nas discussões sobre a nossa sociedade. Muitas evoluções já ocorreram quanto às questões curriculares. Meus pais são do tempo em que as etapas da educação básica eram divididas em “primário”, “ginásio” e “científico”; a língua portuguesa era ensinada somente pela gramática; os métodos de aprendizagem eram fundamentados em “decorar a matéria”. O tempo passou e a divisão da educação básica se fundamentou em “currículo”, “primeiro grau” e “segundo grau”.  Educação Moral e Cívica (EMOCI), disciplina criada para sustentar os valores da ditadura militar. Mais tarde, incluiu-se a Organização Social e Política Brasileira (OSPB), as quais foram extintas com o processo de redemocratização do Brasil; a LDBE foi criada e novas formas de pensar a educação começaram a ser discutidas. Ainda no final dos anos 1990, a educação básica passou a ser dividida em duas etapas: ensino fundamental – subdividida em séries iniciais e séries finais – e ensino médio. A partir daí começa-se a discutir uma educação escolar que se volte para as realidades sociais do educando, especialmente do ensino médio, que está se preparando ao mercado de trabalho. Disciplinas como sociologia e filosofia voltam a ser obrigatórias. A disciplina de língua portuguesa começa a ser trabalhada com o viés da linguagem, para que o aluno domine essa habilidade com proficiência, a priori, pois essa é uma das principais deficiências do sistema educacional. 

Recordo-me quando eu era estudante do ensino médio que eu sempre me questionava por que fazer certas disciplinas que não faziam sentido à minha vida, pois eu não tinha afinidade com física, matemática, química, educação física e artes. Sempre pensava que o ensino deveria oferecer uma grade curricular em que contemplasse as habilidades dos alunos. Então, no primeiro semestre de 2017, a imprensa passou a divulgar a reforma do ensino médio. Uma reforma que, embora necessária e aceita pela maioria da sociedade, foge dos preceitos de gestão democrática do ensino, proposto pela LDBE, pois surgiu de forma arbitrária e sem a consulta da sociedade envolvida no sistema educacional. O sistema educacional brasileiro realmente demanda de mudanças, porém, a reforma precisa partir da sua estrutura, começando pela destinação de recursos à manutenção dos estabelecimentos educacionais - pois existem vários que estão em condições precárias, oferecendo riscos à integridade física de seus usuários -, e também em investimentos na qualificação profissional dos docentes, inclusive por meio de melhorias salariais. 

Dos pontos mais polêmicos da reforma do ensino médio estão o aumento da carga-horária de 800 horas para 1400 horas e da não obrigatoriedade de disciplinas de filosofia, sociologia, artes e educação física. Essas disciplinas não serão excluídas, porém, optativas. Da questão da carga-horária, em tempos de restrições orçamentárias severas, questiona-se como contratar e pagar os profissionais da educação para permanecerem mais tempo na escola, além do aumento das despesas cotidianas que uma escola possui. O estudante que permanece 5 horas diárias dentro de uma escola passará a permanecer, no mínimo, 7 horas. Algo que pode ser um tormento em por conta do currículo oferecer todo esse tempo apenas disciplinas teóricas. Se essa carga-horária oferecesse oficinas de teatro, música, língua estrangeira, esportes, cursos profissionalizantes, por exemplos, poderia haver uma atratividade maior para encorajar o aluno a ficar durante esse tempo todo. Além disso, outro problema surge quando se trata do aluno trabalhador.  A maioria dos alunos que trabalham fazem-no durante o dia e estudam à noite. Se para eles já é um esforço absurdo saírem do trabalho e irem à aula, cansados e com fome, qual seria a motivação ao saberem que terão que fazer o ensino médio em quatro anos? O problema não fica somente ao aluno trabalhador que frequenta a aula à noite; existem também aqueles que estudam de manhã e trabalham no turno inverso. Tornar-se-ia inviável conciliar ambas as atividades. Com certeza, muitos desses irão desistir dos estudos, pois preferem ter a garantia de continuarem ganhando algum dinheiro, embora pouco, mas para a fase da vida em que se encontram é um valor razoável, a permanecerem em um local em que pouquíssimos jovens gostam de estar e o fazem por obrigação. A disciplina de língua inglesa será a única disciplina obrigatória de língua estrangeira. Um grande erro, pois, embora a legislação estabeleça que as disciplinas de línguas estrangeiras tornem o estudante proficiente na segunda língua aprendida, as condições em que a disciplina de língua inglesa é tratada não permite ao aluno saber mais do que perguntar a alguém qual é o seu nome. Além disso, a disciplina de língua espanhola deveria ser a prioridade em regiões fronteiriças, pois o inglês nessas áreas é preterível quanto ao espanhol. Para que se pudesse ensinar com qualidade uma disciplina de língua estrangeira, dever-se-ia ter, no mínimo, 4 horas semanais de estudos, além de um laboratório provido com diversos recursos multimídia e com material adequado para que os alunos se tornassem proficientes no segundo idioma. A realidade atual apresenta apenas 1 período (cerca de 50 minutos), ausência de material e falta de respaldo ao professor de língua estrangeira. 

Pela contingência de recursos, as escolas não terão condições de oferecer aos seus alunos todas as disciplinas optativas para que o aluno escolha as que se adequam aos seus interesses. As escolas terão algumas dessas disciplinas, fazendo com que os alunos tenham que buscar outra escola que ofereça as disciplinas que lhes convenham. Serão recorrentes os casos em que a escola mais próxima da residência do estudante não poderá ser a opção para a sua matrícula.

A sociedade necessita de mudanças consideráveis no sistema educacional. Porém, essas mudanças devem ser plenamente discutidas por todos nós e implantadas progressivamente, indiferentemente do tempo que levar, pois as consequências de um sistema de ensino falho estão latentes. Realizar mudanças por meio da imposição, sem a participação da sociedade só tem como possível resultado a piora daquilo que deveria ser melhorado. 

 

Leonardo Britto da Silva

Professor de Letras, UPF, 2008;

Pós-graduando em Educação Continuada, IFSUL / Pelotas;

Pós-graduando em Mídias da Educação, IFSUL / Pelotas;

Graduando em Letras - Inglês, Uniasselvi.

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